Desabrochar

Tudo começou em uma de noite de terça-feira comum. Estava minha filha e eu descansando no sofá, quando meu esposo nos ofereceu um delicioso açaí. Nunca gostei muito de açaí, mas naquele dia resolvi experimentar mais uma vez para, quem sabe dessa vez, aprender a gostar dessa iguaria. Logo que terminei de tomar todo o açaí da tigela senti um desconforto estranho no peito. Parecia que meu coração tinha espirrado forte. Fiquei assustada com aquela sensação e logo associei ao meu colesterol alto. Tentei relaxar e fui para a cama fazer minha pequena dormir. Cochilei tempo suficiente para que ela dormisse, acordei e a levei para sua caminha. Ao retornar para meu descanso, senti minha língua e lado direito do corpo formigar. Fiquei muito nervosa, chamei meu esposo e aferimos minha pressão. A máquina acusou 14 por 9, algo muito acima de minha, sempre baixa, pressão. Fiquei mais nervosa ainda, acreditava que estava infartando, e que meu fim estava próximo. Corremos para o hospital, lá realizaram inúmeros exames e o atestado final foi de que eu não estava infartando e sim, tendo uma crise de ansiedade.

Como assim crise de ansiedade? Eu senti todos aqueles desconfortos físicos. Esse termo para mim era novo. Não entendi de início o que isso significava. No outro dia fui trabalhar normalmente. Acordei como de rotina e fui. Naquele dia nenhum de meus colegas, como de costume, foram almoçar comigo. O restaurante era perto e eu poderia ir a pé. E assim, fui, um pouco receosa mas fui. No meio do caminho senti que estava infartando novamente. Fiquei sem saber se continuava meu caminhar, se chamava ajuda, ou se voltava para meu escritório. Nesse instante, que me pareceram horas, resolvi continuar, na esperança de encontrar algum rosto conhecido no restaurante. Continuei em passos apressados. Cheguei no salão do restaurante e não encontrei ninguém conhecido. Minhas pernas falharam e então corri para o banheiro. Ao trancar a porta me senti sem ar. Era como se meu oxigênio sumisse, senti meu rosto ficar branco e num impulso, abri novamente a porta e corri para o buffet. Nem me lembro o que servi, só me lembro de me sentar e minha cabeça pesar. Tentei recobrar a dignidade e liguei para minha mãe. Por sorte, ela trabalha tão pertinho e pôde ir me resgatar.
A partir daquele momente percebi com toda clareza que estava em uma crise de ansiedade, que mais tarde foi atestada por outro nome: Síndrome de Pânico.

Contar esta história foi necessário para que possam entender como o meu despertar iniciou, como o meu chamado ao amor aconteceu.